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| Foto por Silentpilot |
Quem me conhece geralmente me acha uma pessoa fácil de conviver. Não estou falando isso como quem está se exibindo, apenas é essa a imagem que eu passo. Se eu não consigo trazer algo de produtivo, faço o máximo possível pra não causar dano a ninguém. Apenas não deixar ninguém pior do que estava quando cheguei. Penso que isso é o melhor que eu posso fazer, por qualquer um. Isso significa que é raro eu ser dura ou grossa com alguém — se fui, ou foi sem intenção, ou não estava bem. Conscientemente evito trazer mais sofrimentos, por que acho que as pessoas já sofrem demais. A vida que cada um leva é sofrimento suficiente.
Em contrapartida, eu sou geralmente meu carrasco. Nunca perdoo meus erros: carrego eles comigo e me lembro até mesmo das coisas mais simples que fiz de errado. Sempre exijo demais de mim: tudo que faço tem de chegar o mais próximo possível da perfeição. Estou sempre me criticando e me colocando pra baixo, mesmo sabendo que estou fazendo meu melhor. É como se eu tivesse uma vozinha na minha cabeça que pega o pior de mim, ainda que seja algo mínimo, transforma aquilo num monstro e esfrega na minha cara. De todas as pessoas que me trazem problemas, eu sou a pior delas. Meu inferno sou eu mesma. Estou sempre ocupada lidando comigo.
Um dia estava navegando no Pinterest, que às vezes me sugere algumas imagens relacionadas a filosofia budista. O Budismo é uma das poucas filosofias que não só tenho interesse em me aprofundar de verdade, como também é uma filosofia que está sempre mudando minha forma de ver as coisas, e aquilo que coloco em prática. Eu gosto, e acho que se encaixa na minha visão de mundo. Como estou sempre salvando algumas frases budistas na minha pastinha, é natural que o Pinterest use seu algorítimo pra me fazer salvar mais imagens. Nesse dia, essa imagem apareceu:
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| "Se sua compaixão não inclui você mesmo, ela é incompleta" |
Eu nem mesmo precisei pensar a respeito do que estava lendo. Não foi necessário. Tão logo terminei de ler a frase, as lágrimas começaram a descer em cascata. Percebi o que estava fazendo e isso foi doloroso. Passei a madrugada toda chorando, e no outro dia, não conseguia esquecer o que li. Ficou martelando na minha cabeça, durante a aula, durante o caminho pra casa, durante o almoço, o banho... Comecei a perceber que, por mais que tentasse trilhar um caminho espiritual, não chegaria muito longe se eu não me incluísse nele, e se esse caminho não servisse pra mim. Na verdade, enquanto eu fizesse uma diferenciação entre "eu" e "os outros" ficaria rodando em círculos nesse caminho. Você não poderia considerar uma pessoa verdadeiramente paciente se ela deixa de ser paciente com alguém, mesmo que esse alguém seja ela mesma. E isso inclui todas as outras características que tentamos melhorar.
Algumas semanas depois, um amigo me deu um conselho — na verdade uma bronca — que complementou a frase. Na verdade, foi a bronca dele que me fez entendê-la por completo. Ele me criticou por eu mesma me criticar, deixando bem claro que eu sou uma pessoa como qualquer outra, sujeita a passar pelo que todos os outros passam — e cometer os mesmos erros que eles. Foi doloroso ouvir isso, mas também necessário. Por mais estranho que possa parecer, me fez abrir os olhos para o que estava bem óbvio: eu nunca trataria nenhum dos meus amigos da forma como eu trato a mim mesma. Nem mesmo consigo me imaginar direcionando aos outros as mesmas palavras que uso para mim. Não combina comigo. Não faz parte de como eu quero passar por esse mundo.
Tive que começar um doloroso processo de perdoar a mim mesma. Um processo nada fácil e que não posso dizer que está terminado: cada dia um erro "imperdoável" aparece, cada dia me sinto menos digna de receber o tratamento que daria a qualquer um, cada dia a vozinha aparece me dirigindo palavras duras que eu preciso lutar para não aceitar como verdade. Mas estou fazendo o meu melhor, tentando ser para mim o que geralmente sou para os outros: uma amiga, disposta a ajudar, disposta a ouvir, fazendo o possível pra não deixar as coisas pior do que estavam. Reconhecer que temos qualidades também não é fácil, tem sempre aquela parte de si mas faz parte do processo. Chegarei lá.
- quinta-feira, agosto 03, 2017
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