Dia 02 de #BEDA - O mundo é um moinho

domingo, agosto 02, 2026

É incrível como uma mudança de endereço trás ares de vida nova para a gente. Ou talvez seja porque, para fazer a mudança, tirei quatro dias de folga, e pude finalmente viver minha vida fazendo outras coisas que não sejam pensar em trabalho 24horas por dia. Inclusive, nossa relação com trabalho sempre foi algo que me frustrou a vida toda, desde que eu era criança e observava quanto tempo as pessoas gastam trabalhando, até hoje, quando sou eu que gasto muito tempo trabalhando. Sinto que a vida humana na Terra tem tanto potencial, mas a gente (a grande maioria da população que não vai herdar uma fortuna), desperdiça grande parte desse tempo trabalhando — não por escolha própria, obviamente.

Entre as coisas que venho pensamento ultimamente, sinto vontade de cuidar mais do meu corpo. Na questão estética mesmo. De passar um hidratante, de lavar meu rosto com um sabão próprio pra isso, de caminhar mais, de fortalecer alguns músculos... enfim, talvez a questão não seja tão estética, afinal. Nos últimos anos ando sentindo muito forte o peso do sedentarismo, nunca fiquei tão sedentária, nem mesmo em ano de pandemia, quando a gente não podia sair de casa. Lembro, inclusive, de me exercitar bastante na pandemia, justamente por saber que sentiria o impacto se não me mexesse com frequência.

Alguma coisa mudou dentro de mim nos últimos anos, algo que não sei descrever muito bem e que ainda não entendi completamente, mas me impacta no cotidiano. Sinto que me apaguei, como nunca antes, que fui deixando de sonhar e fazer planos, que me desconectei de quem eu era e do que era importante para mim. Participar do BEDA esse ano é uma tentativa de reconectar com um pouco do que eu era, assim como todas as metas que fiz para esse ano. Me falta alguma coisa para sonhar, e eu não sei o que é nem onde encontrar, e isso me entristece. Até mesmo na tristeza sinto que me falta algo, não me sinto triste como sentia tristeza antes, me parece um sentimento apagado, fosco, como se estivesse sendo ofuscado por alguma coisa. 

Enfim, ando me sentindo cada vez mais e mais adulta. Não no sentido de assumir mais responsabilidades e precisar viver por conta própria, mas no sentido de estar sendo tão massacrada pelo mundo e pelo sistema que ando perdendo o brilho nos olhos e deixando de me afetar ou me revoltar, apenas aceitando que as coisas são como são e observando tudo em vazio. Sabe aquela música, o mundo é um moinho? Eu chorava quando ouvia, de tão real e dolorido, mas no momento eu só... ouço. E nem mesmo a ausência de dor, dói.

Acho que o fato de escrever e pensar e tentar entender ainda trás consigo um pouco de esperança, não de voltar a ser quem eu era, mas de ser uma versão nova que me deixe satisfeita. Acredito que grande parte disso seja cansaço de uma carga excessiva de trabalho, mas no momento, não tenho muita perspectiva que não me manter trabalhando. Consegui, pelo menos, uma psicóloga nova para começar terapia de novo, e espero que na terapia eu consiga sustentar um pouco mais o peso do mundo. Viver é muito difícil, mas quero continuar tentando. Acredito que em algum momento as coisas serão melhores, até lá, sigo caminhando.

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