Minisérie Maid - Violência doméstica é muito mais complexo do que parece
sábado, agosto 08, 2026Maid é uma minissérie americana de drama, lançada pela Netflix, com apenas 10 episódios de duração. A série acompanha a jornada de Alex, uma mulher que luta para conseguir criar a filha após deixar um relacionamento abusivo sem nenhum suporte ou rede de apoio, contando apenas com ajuda governamental e uma série infinita de burocracias que mais complicam sua vida e tornam difícil fugir da relação.
Encontrei a série Maid por acaso quando abri, quase sem querer, o aplicativo da Netflix no celular. Não sou chegada a minisséries (e nem assistir pelo celular) mas acabei dando uma chance após ver um pequeno trecho que tocou sozinho logo que abri o aplicativo. Era uma cena de Alex, sentada no chão com sua filha e um aspirador de pó, passando a noite em claro enquanto esperava a balsa para ir ao trabalho, mentindo para um conhecido que encontra sobre porquê estava naquela situação. Me chamou atenção a desconfiança e dificuldade em pedir ajuda da parte de Alex, algo esperado de alguém que acabou de sair dessa situação.
O tema de relações abusivas e violência doméstica sempre chamou minha atenção. Escrevi sobre isso no TCC e depois no Mestrado, e atualmente ainda leio sobre o assunto vez ou outra. Algo que sempre me chamou atenção, e eventualmente fui encontrando respostas, é porque as pessoas se mantém em relacionamentos assim, quando para quem está de fora, sair parece tão fácil. Mas não é, e Maid trabalha isso muito bem.
Alex não tem ninguém além de si mesma. Consegue um trabalho como faxineira em uma empresa, que remunera mal suas trabalhadoras e as submetem a todos os tipos de exigência. Sua família é disfuncional, e aos poucos, observando suas relações com outras pessoas, entendemos porque, inicialmente, ela tem tanta dificuldade de entender a violência que sofre como violência. Alex não sofre nenhuma violência física (tapas, socos, chutes, empurrões, etc.) vinda de seu ex-namorado, Sean, e portanto, o comportamento dele é sempre desculpado, justificado, perdoado ou diminuído, inicialmente pela própria Alex, posteriormente por seus colegas e familiares, e até pelo próprio Sean.
Não é que a violência física contra mulheres seja tão reconhecida, sempre tem uma justificativa, uma desculpa que levou ao ato, mas a violência psicológica é mais sutil, invisível, e até chegar a ser reconhecida, já causou bastante estrago em quem sofre dela.
Para conseguir sair dessa situação, Alex permanece durante um tempo morando em um abrigo, próprio para mulheres que sofreram violência. O abrigo é parte fundamental para a recuperação de Alex, o que nos mostra a importância desse tipo de política pública, que infelizmente ainda é muito precária aqui no Brasil.
Nota: no Brasil, esse tipo de abrigo chama-se Casa-Abrigo, e é uma das partes fundamentais da Lei Maria da Penha. Trata-se de um lugar sigiloso que possibilita o acolhimento dessas mulheres, a fim de saírem de casa e ficarem longe do principal lugar onde a violência ocorre. Infelizmente, apesar da lei, o número de Casas-Abrigo no Brasil ainda é muito pequeno.
Embora seja importante a rede de apoio, o abrigo e o financeiro, isso não é suficiente para manter alguém longe da situação de violência. É preciso também um trabalho psicológico, algo que também aparece na série, a fim de fortalecer a mulher para que ela não retorne. Particularmente achei muito interessante que a série também mostra aspectos como esses, de mulheres que retornam ao antigo relacionamento, na expectativa de que as coisas mudem. Acredito que a maioria das pessoas não pensa nesse detalhe, mas existe uma parte de todo relacionamento que é bom. Se o relacionamento fosse 100% ruim, se o parceiro se mostrasse abusivo logo no primeiro encontro, ninguém entraria em um relacionamento desse tipo. Mas é a expectativa de que as coisas sejam sempre boas ou que voltem a ser o que eram acabam contribuindo para a manutenção desse relacionamento.
Um aspecto interessante de Maid que, embora tenha me deixado com muita raiva, acredito que tenha sido uma escolha acertada, é que o roteiro não "demoniza" Sean (o ex-namorado). Sean é alcoólatra e grande parte do seu comportamento violento ocorre quando ele bebe. Apesar do comportamento violento, a série o retrata com alguém com qualidades, que está tentando superar o vício e ser um pai melhor para a filha. Embora a primeira vista a gente olhe para isso com cinismo, é importante lembrar que homens violentos são pessoas comuns, com qualidades e defeitos como qualquer outro, sendo muitas vezes pessoas bem vistas no meio social em que vivem. O que torna não só mais difícil para uma mulher sair dessa situação, como também para identificar ou ser acreditada quando denuncia uma agressão.
Por fim, Maid é uma ótima série, e me prendeu do início ao fim. Trata do tema com respeito e seriedade que merece, sem cair em estereótipos ou visões rasas sobre o assunto. Perfeita para quem gosta de drama se interessa em entender um pouco mais da realidade de mulheres que sofrem ou sofreram violência por parte de seus parceiros.





0 comments
Leio tudo com carinho e respondo sempre que posso.
Para dúvidas ou sugestões use a página de contato;
No mais, agradeço o comentário e a visita. Volte sempre! ♥