Mais reclamação do capitalismo
sexta-feira, agosto 14, 2026Hoje foi um dia cansativo, mas não quis deixar de escrever. Tem algo traiçoeira na formação de hábitos que, quando você pula um dia ou dois, fica cada vez mais difícil voltar. E escrever todos os dias de agosto, por mais que possa não parecer, é uma tentativa de formar um hábito, ainda que com prazo para acabar.
Ainda estou no processo de me mudar. Na etapa que considerei a última, no caso, a de entregar o apartamento onde eu morava. Tem sido muito cansativo, principalmente porque, para fazer isso, preciso conciliar minha rotina do dia a dia (trabalhar, almoçar, etc) com se deslocar o tempo todo para o apartamento e ajeitar as coisas por lá. Como disse por aqui em outros momentos, tudo fica mais fácil quando se tem um carro.
O lado bom é que agora temos uma bicicleta nova. "Temos" é um jeito de dizer, pois embora esteja escrevendo na primeira pessoa do plural, não considero a bicicleta minha. Aprendi a andar de bicicleta esse ano, e ainda estou pegando prática. Não estou segura o suficiente de experimentar uma bicicleta elétrica, dessas mais parrudinhas, que parecem uma moto. É curioso que há muitos anos atrás, eu não imaginaria que estaria rodando pela cidade em um veículo com funcionamento similar a uma moto (deixa de ser uma moto por apenas uma tecnicalidade).
Para ser sincera, andar de bicicleta tem sido o menor dos meus medos nos últimos dias. Eu achava que de alguma forma, quando estivesse na idade que tenho hoje, eu deixaria de ter medo das coisas. Eu ainda tenho medo das coisas que tinha medo quando era criança — altura, fazer uma cirurgia, estar dentro de um carro e ele capotar, ser mordida por um cachorro, etc — mas ultimamente essas coisas parecem tão pequenas e sem sentido. Ainda que eu continue tendo medo delas.
Ser adulta me trouxe medos ainda piores que os que eu tinha. De perder meus pais de forma inesperada, de perder minha renda do dia pra noite, de sofrer um acidente (olha o medo de criança aqui ainda) e não conseguir mais trabalhar, de não conseguir aposentar, seja por idade seja pelo motivo anterior, de não ter onde morar, de me arrepender das escolhas que estou fazendo e só perceber quando não tem mais volta, enfim, são medos mais existenciais e relacionadas à sobrevivência no capitalismo. Não é que esses medos não existiam quando eu era criança, mas pareciam tão distantes e impossíveis, como se eu nunca fosse chegar na vida que tenho agora. E cá entre nós, em segredo: eu gostaria de não ter chegado.
Bom, saindo do muro das lamentações de como a vida é difícil, retomei a pós que estava fazendo, e assisti hoje um vídeo sobre revolta na juventude. O vídeo falava justamente sobre aquele sentimento de ainda ser jovem, olhar os adultos e não entender como pode todo mundo ser tão inerte assim. Sendo agora a adulta, eu não quero ser aquela que apaga a chama da revolta dos jovens, mas eu sei o que nos torna tão inertes. Estamos sendo tão massacrados, com uma força e frequência tão grande, que não sobra para reagir. Não é a primeira vez que falo sobre isso, e duvido que seja a última, mas hoje estou cansada demais até para reclamar. Espero poder escrever sobre outras coisas um dia.


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