Autismo
segunda-feira, agosto 10, 2026Há alguns anos atrás, fui diagnosticada como autista. O processo foi longo, cansativo e caro, e não surpreendeu ninguém, exceto talvez, a mim mesma. Embora eu sempre desconfiasse e sentisse que tinha algo de "errado" comigo, nunca corri atrás de investigar isso, e eu mesma nunca soube bem explicar porquê. Só não parecia que é pra mim, e fui levando a vida desse jeito. Tenho dificuldade de me apropriar das coisas, de considerar algo como "meu", e com o diagnóstico de autismo não foi diferente. Quase quatro anos depois, eu ainda tenho dúvidas.
Uma coisa que muita gente fala ao ser diagnosticado de forma tardia com autismo é de uma sensação de alívio, de poder finalmente se entender e se perdoar pelas tentativas falhas de "funcionar", de compreender que não há nada de errado na forma como está no mundo, enfim, o diagnóstico vem quase como um acalento. Para mim, foi completamente diferente disso. Senti uma sensação de perda muito grande, quase um luto pela pessoa que eu gostaria de ser. É como se o diagnóstico tivesse enterrado uma parte de mim que eu nunca cheguei a ser, e que não importava o quanto eu continuasse tentando e me esforçando, eu nunca seria aquela pessoa. E, devido a própria natureza do autismo, eu nunca vou ser.
Acontece que eu cresci como autista, mas sem ter consciência disso, notando apenas que tinha "algo" comigo, diferente dos outros, que eu não sabia nomear nem entender, mas que eu acreditava que, se observasse o suficiente, se treinasse o suficiente, se ensaiasse, se me acostumasse, se me esforçasse, se me adaptasse, se fizesse muita terapia, se me medicasse, se encontrasse estratégias e meios e formas de lidar com isso, eu conseguiria superar esse "algo" não dito e mal compreendido, e conseguiria finalmente... não ser assim. A incompreensão é tanta que só consigo pensar nesse "algo" em termos de negativo. Não consigo imaginar como eu seria, só consigo pensar em termos de "não ser".
E, voltando ao diagnóstico, foi como receber uma sentença: não importa o que ou como você faz, existe algo de estruturante, biológico, no seu funcionamento, que te impede de passar desse limite. O diagnóstico me deu um limite de quem eu poderia ser. E essa foi uma das coisas mais tristes que já senti na vida. Não só de perceber que existe um ponto que não vou conseguir ultrapassar, como também perceber que os últimos 30 anos tentando passar desse ponto foram um esforço em vão. Um desperdício de potencial que poderia ter sido gasto em outra coisa.
É claro que sou teimosa e às vezes, ainda me pego insistindo. Tentando superar essa "coisa", tentando não ser... autista. E então começo as esbarrar nas barreiras invisíveis. Esbarro nas amizades e no ciclo social que não consigo manter, e não sei explicar porquê. Esbarro no trabalho que não flui, nos esforços que não levam a nada, nas pessoas que não se mantém e eu não consigo entender onde errei. Esbarro no cansaço absurdo, na falta de vontade de fazer qualquer coisa, na raiva sem motivo, e em outros "sintomas" que aparecem sabe-se lá de onde e pra quê. Esbarro também nas questões de saúde, uma gripe, uma crise de enxaqueca, um estômago sensível, uma dor no pé... coisas que começam a levantar a suspeita de exagero ou paranoia quando colocadas na conta do autismo. Mas como eu posso separar o que é "meu" e o que é do "autismo" se eu sou o autismo em mim?
Enfim, não é fácil receber um diagnóstico desse tipo. Eu gostaria de dizer que estou melhor em relação a cobrança de ser outra coisa, mas eu estaria mentindo. Ainda me cobro, e muito. Queria ter sido uma dessas pessoas que se sente abraçada pelo diagnóstico e finalmente encontram paz, mas não fui. Sigo teimando nesse esforço. Só o tempo para dizer se será em vão ou não.


1 comments
Esse post é muito real pra mim - porque ao passo que pra mim foi, sim, um alívio receber as respostas do porquê sou diferente, foi desolador me dar conta que o mundo como ele é, não dá pra mim. Que eu já me adaptei tudo o que podia, que já fiz tudo o que dava, que já me encolhi até o máximo pra caber e que, ainda assim, não caibo.
ResponderExcluirÉ muito ruim saber que não tem lugar pra gente no mundo, né? Que o que tem de "errado" não é um erro e nem culpa nossa - e que por tabela, não tem solução. Não ser um problema é, também, seu próprio problema, de alguma forma, porque não tem mais possibilidades. E não que não tenha potência na nossa existência, mas é ser obrigada a abrir mão de um amanhã que sempre foi desejado, e foi enterrado a sete palmos sem choro nem vela. Enfim, poetisei.
Sinto muito que você se sinta assim, e espero que a terapia e a sua rede de apoio te ajudem a se sentir melhor na própria pele. :)
Leio tudo com carinho e respondo sempre que posso.
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