Falando com estranhos

segunda-feira, março 13, 2017

Foto por Steinar La Engeland
Eu tenho um método infalível de puxar assunto com estranhos em ponto de ônibus. Estou sempre usando esse método para tentar conversar com alguém, mesmo que por um momento, só pra ver o que algumas pessoas tem a dizer. O método é bem simples, e tomando os devidos cuidados, dá pra ser usado com qualquer pessoa que esteja no ponto. Eu vou até alguém que parece potencialmente interessante, munida da minha expressão mais simpática e pergunto "você está esperando ônibus pra onde?". A pessoa responde, e eu explico o lugar para onde quero ir, explicando que não conheço as linhas de ônibus e não sei direito qual ônibus pegar (atualmente já tenho noção, mas ninguém precisa saber). Se a pessoa for gente boa e conhecer as linhas, ela vai me indicar quais ônibus posso pegar, e vai engatar uma conversa. Se a pessoa for gente boa e não conhecer as linhas, ela vai contar da própria dificuldade e vai engatar uma conversa. Algumas pessoas não dão muita confiança e deixam a conversa morrer. Acontece.

Me lembro de dois casos particularmente interessantes, no meio de um monte de estranhos que já conversei um pouquinho. O primeiro, de uma senhora, que infelizmente não me lembro o rosto, mas que também tinha a mesma dificuldade que eu em saber quais ônibus vão pra onde. A empresa tinha acabado de trocar as cores de alguns ônibus, adicionando cores novas, mudando algumas cores que já existiam, e com a mudança também retiraram a tabela de itinerários que ficava na lateral do veículo. Expliquei pra ela que sou de uma cidade que só existe um ônibus pra cada bairro, e ela comentou o quanto estava mais difícil agora, com a mudança das cores. Ela falava "eu também não entendo mais nada, tem ônibus vermelho na zona norte, tem verde na sul, tem cor que não tinha antes, tá uma confusão!" E eu disse: "eu costumava pegar alguns verdes que passavam aqui, mas a maioria virou vermelho!" E ela: "a gente não sabe de tá falando de ônibus ou fruta", e eu ri, meio sem entender, até que ela completou "era verde, agora ficou vermelho, parece que o ônibus madurou!". Foi o comentário mais engraçado que eu ouvi a respeito da confusão toda causada pela mudança. Nunca me esqueci daquela senhora.

Outro caso que eu adoro é de um homem adulto, que consigo lembrar apenas dos dentes dele: os da frente subiam ligeiramente um no outro. Ele falava alto e tinha uma risada engraçada. Queríamos pegar o ônibus pro mesmo lugar, mas nenhum de nós sabíamos que ônibus pegar. Eu tinha usado meu "método" com a pessoa que estava ao lado e ele se intrometeu na conversa. Ele não parava de falar que nós dois íamos nos perder na cidade, mas isso era menos pior que se perder sozinho (na verdade, era impossível que nos perdêssemos ali, mas eu não sei dizer se ele sabia disso). A cada ônibus que passava nós perguntávamos ao motorista se ele passava na rua que queríamos, até que finalmente conseguimos um. Entramos no ônibus e ele sentou no banco a minha frente, dizendo "vamos ver se ele vai pro lugar certo" e eu ri, concordando. Não nos falamos mais durante o trajeto, o ônibus parou no meu ponto — o principal ponto da rua — e nós acabamos descendo no mesmo lugar. Nos despedimos com ele dizendo "viu? Deu certo, não nos perdemos" e eu ri mais um pouco. Não me lembro do que eu falei, se é que falei alguma coisa. Pros outros, eu seria a "Estranha-que-ri-mas-não-fala".

"Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar."
Carlos Drummond de Andrade

Às vezes, as conversas não são conversas, e vem no improviso. Gosto de um caso em particular, que aconteceu por impulso, fora do ponto de ônibus. Estava esperando o sinal de pedestres abrir e uma senhora estava parada do meu lado, com uma cachorra na coleira. Sou apaixonada por cachorros e não resisti ao charme da cachorrinha. Me abaixei pra brincar com ela, e a senhora riu, falando com a cachorra algo que eu não me lembro. O nome da cachorra era Nina. Nina é um apelido pra Marina. Eu disse a ela o quanto a cachorra era bonita, atravessamos a rua e acabou aí. Foi um contato muito rápido, um acontecimento muito simples, mas eu gosto de me lembrar dele. 

Idosos são, em maioria, pessoas muito abertas a conversar. Conheci num ônibus, voltando pra minha cidade, um senhor que trabalhou com meu falecido avô. Foi uma coincidência enorme. Conversando com ele, descobri que eles trabalharam no mesmo lugar e se conheceram. Ele me falou dos lugares que tinha visitado, as viagens que tinha feito, os casamentos que teve, os filhos, os patrões, o que fazia, onde vivia... Falou a maior parte da viagem, aproveitando também que eu não falo muito. Senti que ele queria muito contar a própria história, como a maioria dos idosos. Esse senhor me lembrou, na época, o quanto era importante para mim, mais do que ter ou conquistar coisas, viver coisas e ter histórias pra contar. Histórias como essa que estou contando agora.

Tem uma frase do livro Todo Dia que eu tô sempre citando: "toda pessoa é uma possibilidade". Toda pessoa tem algo a oferecer, seja um sorriso, um cumprimento, uma piada sobre ônibus e frutas, uma risada ou a própria história. Desconhecidos são caixinhas de surpresas, às vezes, o conteúdo é agradável e faz valer a pena, às vezes era melhor nem ter aberto, mas em todas as vezes, o risco vale a pena. Tomando o devido cuidado, a gente só vai saber o conteúdo abrindo a caixa. No Vida Simples, tem um artigo que ilustra muito bem o que estou dizendo, o título é "fale com estranhos". Não estou recebendo pra indicar o site, mas se você gostou do meu post, a leitura vale a pena. E já que estamos aqui, quais histórias de estranhos você tem pra me contar?

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20 comentários

  1. Coinscidentemente, estou lendo dois livros que falam sobre conexões e falar com estranhos. Também vi uma palestra do TED esse final de semana sobre o assunto huahua engraçado, né kk
    Eu sou uma pessoa bem tímida, então falar com estranhos é um desafio. Eles sempre vem puxar assunto comigo ou elogiar o meu cabelo rosa, eu fico sem graça, mas retribuo com palavras e gestos. Fiquei com vontade de escrever sobre isso no meu blog. Eu sempre fico inspirada quando venho aqui no seu cantinho.

    Ainda não respondi o seu e-mail, mas porque não sentia que tinha algo para acrescentar à você. Agora me sinto mais aberta para responder <3.

    bruna-morgan.blogspot.com

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    1. Me indica eles Bruna!! <3<3

      Eu sou muuuito tímida também, na verdade é um desafio pra mim manter essas conversas, mas eu gosto, então me esforço pra vencer isso. O seu cabelo é lindo e muito diferente, deve dar um bom "gancho" pra puxar assunto com você hahaah'

      Todo mundo tem algo a acrescentar, na verdade, acho que quem não vai te acrescentar muito sou eu. Mas fico feliz de saber que você vai responder agora <3

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  2. MEU DEUS DO CEU EU DEI UM PULO DA CADEIRA ahIUahiuhIUAH
    EU FAÇO A MESMA COISA NO PONTO DE ONIBUS SO PARA VER A REAÇÃO DA PESSOA hauHaiuahuiHaiHiuHA

    Tá certo que não tenho problemas para puxar assunto em qualquer situação, geralmente me dou melhor em filas, mas em ponto de onibus é interessante porque a pessoa não está esperando ahuhauhauha

    Fiz uma amizade assim..

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    1. Bate aqui Clayci!!!!

      Eu tenho muita dificuldade em puxar assunto, só consigo quando já tenho uma noção do rumo que a conversa vai tomar ou quando já tenho em mente o que dizer. Conversar com estranhos me ajuda um pouco hahah'

      Nunca fiz amizade assim, deve ser uma sensação boa pra caramba <3

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  3. Boa tarde,
    Como vai?
    Ai que post legal! Tão leve!

    Fiz amizade com uma garota num ponto de ônibus no ensino médio e coincidentemente hoje nós estudamos na mesma faculdade.

    Beijos e se cuida
    www.rimasdopreto.com

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    1. Oi Sandro, há quanto tempo! Vou bem, e você?

      Que coincidência bacana! Adoro amizades que começam com coincidências assim, não sei se acontece contigo, mas todo momento bom que tenho com amizades que "nasceram" de coincidências, eu fico pensando "se tal coisa não tivesse acontecido eu não estaria vivendo isso agora!". Claro que isso vale pra tudo, mas é ainda mais estranho quando a amizade nasce de um imprevisto.

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  4. eu ja tive muito problema em se comunicar com outras pessoas, mais esse medo fugiu de min, e agora eu converso com todo mundo!!!

    Eu acho super bacana conhcer pessoas novas, principalmente no ponto de onubus, eu não acredito que seja pura conhecidência eu espear um onibus no mesmo lugar, na mesma hora com uma pessoa, eai que eu e interajo, e ja pergunto se a pessoa mora muito tempo aqui, mas eu faço isso com uma certa cautela e cuidado, para que nada de ruim aconteça né hahahahaha

    Dose de estrela <3

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    1. Eu já tive muito mais medo do que tenho agora, parece que a gente vai se acostumando com a sensação, vai perdendo o medo e gostando da coisa. Eu só evito interações quando estou muito cansada, geralmente não consigo conversar (ou nem tento).

      O que mais me intriga nessas situações é que a gente se depara com tanta, mas tanta gente, e cada uma viveu tanta coisa, não consigo não ficar curiosa pra saber o que cada pessoa tem pra contar.

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  5. Eu não sou muito boa para puxar assunto, principalmente quando são estranhos ou pessoas com quem apenas posso chamar de "conhecidos", mas que na verdade não conheço nada.
    Haha' adorei seu método, muito eficiente por sinal... Essa senhora do ônibus que virou fruta e madurou me pareceu muito simpática, adorei o diálogo haha'
    " Pros outros, eu seria a "Estranha-que-ri-mas-não-fala". " - sou muito assim também, as veze por não saber o que falar, e ficar com receio de falar algo idiota na conversa mais séria, eu apenas dou uma risada ou um sorriso e acompanho o assunto. Ganhei fama de "quieta" por causa disso, mal sabem que quando estou mais a vontade eu não paro de tagerelar.
    Adorei seu post, realmente é muito legal conhecer novas pessoas assim, "de momento" e perceber como as experiências e histórias são importantes.

    Beijos!

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    1. Também não sou boa Isadora, por isso tenho essa estratégia hahahah' Só consigo puxar o assunto quando já sei como fazer isso, no improviso não rola.

      Ela era! Geralmente idosas são muito simpáticas, parece que estão realmente felizes de levar a conversa adiante.

      Eu não falo muito mesmo, às vezes nem sei mesmo o que falar, então fico sorrindo, pra dizer a pessoa que estou ouvindo o que ela está dizendo hahah' Temos a mesma fama o/

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  6. Lendo o seu post e o comentário dos leitores fico de boca aberta pela facilidade com que vocês fazem isso, é incrível saber que vocês tem coragem o suficiente para puxarem assunto em lugares púbicos, como dentro de um onibus ou ponto. Simplesmente é algo que não consigo é puxar assunto com pessoas que eu não conheço, e olha que eu ainda tenho um pouco de dificuldade de falar com pessoas que são próximas de mim. Admito que isso me atrapalha muito, pois eu sou muito tímida, e não gosto de falar muito, a não ser que seja o namorado, mas sempre tenho algo a falar para as pessoas, por isso criei o blog e desde então, estou aprendendo aos poucos a enfrentar os meus medos e fraquezas e acima de tudo, aprendendo a me expressar, claro que será um processo longo, mas quem não me garante que um dia vou estar puxando assunto com tanta facilidade <3 adorei a sua experiência.
    www.luaintensa.com.br

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    1. Facilidade nada Luana, suei muito (literal e metaforicamente) pra conseguir fazer isso! Eu tinha uma dificuldade enorme de falar com qualquer um, até família, foi uma luta pra superar. O blog também me ajudou muito com isso, porque eu consegui perceber que eu tinha muita coisa pra falar e que existem pessoas dispostas a ouvir. Mesmo que seja virtual, interagir por aqui também é interagir com um "estranho", então, se você está comentando no meu blog, parabéns! Você acabou de conseguir falar com uma estranha rsrs Nem foi tão difícil, viu? Agora é só levar pra vida off-line

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  7. Eu confesso que pra mim, aquele momento em que eu estou voltando para casa, no ponto de ônibus e etc, são meus momentos de peregrinação. Estou sempre com um livro na mão e fones de ouvido, com a cabeça num lugar muito longe de onde meu corpo está.
    Se tem algo que eu odeio, é quando alguém interrompe esse meu momento. É quase sagrado, sabe? Detesto quem chega querendo bater papo, tipo... não.
    Apesar disso, já tive alguns contatos interessantes por aí, recentemente com um senhorzinho muito simpático cheio de amor pela esposa, que quis me contar a história dele.

    Beijos
    www.jadeamorim.com.br

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    1. Oi Jade! Às vezes, quando estou muito cansada eu também faço isso. Geralmente não puxo assunto com pessoas que estão lendo ou ouvindo música, porque sei que não querem ser incomodadas (é uma situação chata mesmo né?). Escolho as pessoas que parecem mesmo abertas a conversar e tento alguma coisa, mas não é sempre que funciona não hahahha'

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  8. Como a maioria dos comentários, eu acho o caminho casa-trabalho e faculdade-casa, um momento pra ficar quieta. De fone, com livro em mão ou escrevendo. Afinal, fazendo qualquer coisa que não envolva interação social. De vez em quando — beeem raramente —, alguém puxa conversa e eu até aceito e completo, mas vou te contar que saíram algumas boas lembranças, viu?
    A última, era de uma senhora super simpática que me contou das memórias de um gato dela — Kenai o nome dele, esse eu lembro — e ela até chorou no ônibus relembrando dele. Foi lindo, eu me senti tão próxima a ela num momento tão corriqueiro, sabe? ♥

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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    1. Que nome diferente pra um gato! Adorei a história! É esse tipo de coisa que acontece com a gente que acaba marcando, mesmo sendo muito simples. Vale a pena abrir uma exceção pra nossos momentos de paz pra interagir com estranhos um pouco, mesmo sendo só de vez em quando. Legal saber que a senhora compartilhou essa história com você ♥

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  9. Guriaaaaa, amei esse post!Confesso que não tinha o costume de conversar com estranhos. Em parte por medo. Mas comecei a engatar conversa com os outros alunos que pegam o ônibus universitário comigo. Afinal, até o ônibus chegar, são uns bons 20 minutos de espera. Às vezes sou eu que puxo assunto, às vezes ele. E percebi que todo mundo começa com: pra qual universidade você vai. E daí sempre surge alguma coisa sobre o curso, a instituição, trabalho, estágio, os motoristas brabos dos ônibus, a falta de consideração da empresa de transporte com os alunos, os preços altos (30 reais por dia!)... alguns que vejo mais seguido até já tenho no face kkk Mas tem dias que espero sozinha na parada e confesso que algumas vezes alguns homens estranhos até tentaram puxar conversa comigo mas não dei corda, por medo mesmo. Como pego em uma parte que tem dias que é vazio, já sofri até assédio lá, por um cara que estava passando com o carro, viu que eu estava sozinha e começou a dirigir bem devagar e se masturbar na minha frente, me olhando com a maior cara de nojento. Juro que morri de medo dele me jogar pra dentro do carro, mas antes que pudesse pensar em alguma coisa, algumas pessoas estavam descendo a rua, ele viu e se mandou.
    E concordo com você que idosos sempre tem muita história pra contar. Lembro quando eu trabalhava em loja, as minhas colegas de trabalho sempre me mandavam atender, porque eu era a única vendedora com paciência para escutar a história delas (e juro que às vezes ficava uma hora, sem brincadeira, uma hora mesmo escutando a cliente).

    Beijooos

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    1. Estudar em Universidade deve ser ótimo pra quem gosta de conhecer pessoas e bater papo! A instituição onde eu estudo é bem pequena, não tem muito disso não.

      Espero que isso não aconteça de novo com você, deve ter sido horrível a situação.

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  10. Quando estava gravida engatava altas conversas com gestantes em lojas, ônibus e etc. Parece que nos atraiamos, quando vc tem um bebe e outra pessoa tem bebe, fica meio estranho rs

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  11. só passando aqui casualmente nos seus posts de 2017 pra dizer que tô adorando ler o blog — e que adorei ler essa coletânea de histórias com estanhos. eu costumo dizer que o sorriso de um estranho na rua pode bastar pra tornar um dia que começou mal em um dia que pode ser ótimo!!

    beijinhos <3

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